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Texto de Hugo
Vicente Capelato (adaptado), Divisão de Astrofísica, INPE. Vamos começar o nosso
estudo por uma inspeção mais ou menos superficial na "floresta" de estrelas que
vemos nos céus. A primeira coisa que notamos é que elas são fontes de luz muito
mais fracas que o Sol. A segunda coisa é que suas cores aparentes são variáveis,
desde um branco azulado da maioria, até o um amarelo avermelhado, um pouco mais
raro.Há ainda um terceiro aspecto, embora este já não seja muito óbvio a olho
nu: é que a maioria das estrelas agrupam-se em pequenas famílias de dois, três
ou mais membros. Um bom exemplo disto é a estrela Alfa do Centauro, a estrela
mais próxima de nós, que na verdade é um sistema triplo de estrelas. Outro é o
grupo de 7 estrelas que formam as Plêiades, discutido mais adiante . Na verdade quase metade
das estrelas fazem parte de sistemas duplos, de apenas dois membros, chamados
estrelas binárias. A maioria destas estrelas duplas, embora vivam juntas, distam
entre si várias unidades astronômicas (uma unidade astronômica, UA, é a
distâncias da Terra ao Sol), movendo-se uma em torno da outra com períodos de
vários anos. Existem no entanto estrelas binárias cuja separação é muito menor e
que se movimentam com períodos de apenas algumas horas! Estas estrelas estão tão
próximas uma da outra que são capazes de trocar entre si seu material
envoltório.
Muitas vezes esta troca ocorre de maneira um pouco violenta, e então podem
acontecer explosões locais que expulsam a matéria para longe do sistema. Em
outros sistemas binários, onde acontece que uma das componentes seja uma estrela
muito compacta e densa, o material da companheira flui mais calmamente, formando
um disco luminoso em torno da estrela compacta.A distância média que separa
estrelas vizinhas (ignorando os sistemas binários) é de cerca de 4 anos-luz.
Esta distância equivale a 253.000 unidades astronômicas ou a 27 milhões de vezes
o diâmetro do Sol: o espaço entre as estrelas é imenso, comparado com o tamanho
das estrelas, ou mesmo do Sistema Solar. Assim como o Sol, as
estrelas são bolas de gás muito quente que emitem sua radiação para o espaço. Há
duas propriedades das estrelas que são de interesse imediato: a sua cor e o seu
brilho. A cor de uma estrela é determinada pela temperatura em que se encontra a
sua superfície , enquanto que o seu brilho é determinado pela quantidade de luz
que ela irradia por segundo, através de toda a sua superfície. Podemos construir
um diagrama de cor versus brilho das estrelas, como na figura a
seguir, onde cada ponto indica o brilho e a cor de uma determinada estrela. Um
diagrama deste tipo é conhecido como diagrama de Hertzprung-Russel (HR).
O Sol tem uma cor intermediária amarelo-claro. A sua
temperatura na superfície é de cerca de 5 800 K (graus Kelvin ). Uma grande
parte das estrelas é parecida com o Sol, com cores e tamanhos comparáveis.
Outras estrelas são bem maiores e vermelhas: são as estrelas gigantes vermelhas,
cuja temperatura na superfície é da ordem de 3 000 K. Há ainda estrelas de cor
branca e tamanho muito pequeno, quase tão pequenas quanto a Terra: são as
estrelas anãs brancas, que tem temperaturas superficiais da ordem de 10000 K.
O brilho de uma estrela é a taxa com que a sua
energia luminosa é emitida. O brilho de uma estrela depende somente da sua
temperatura superficial e da área total de sua superfície. As estrelas gigantes
vermelhas, de temperaturas relativamente baixas, tem uma grande área
superficial, por isso são estrelas brilhantes, luminosas.
A estrela Betelgeuse, na
constelação de Orion, é um bom exemplo de uma estrela gigante vermelha. Já as
estrelas anãs brancas tem altas temperaturas superficiais mas, por serem muito
pequenas, tem áreas superficiais também muito pequenas e são muito pouco
brilhantes: impossível enxergar qualquer uma delas a olho nu! No diagrama H-R da
Figura abaixo nós desenhamos também as linhas tracejadas que indicam os lugares
onde devem cair as estrelas de mesmo raio : é fácil ver quão correto foi batizar
de Super-gigante uma estrela como Betelgeuse.
O diagrama H-R, que mostra como as
estrelas se distribuem conforme sua cor Muitas vezes nós estamos
interessados na quantidade total de radiação emitida por segundo pela estrela.
Uma parte desta radiação pode nem ser detectável pelos nossos olhos. Neste caso,
no lugar de falar de brilho para a radiação total (visível e invisível), falamos
da luminosidade da estrela. A luminosidade de uma estrela é a potência que ela é
capaz de gerar no seu interior, em geral através de reações nucleares de fusão
(ao contrário dos reatores de energia do tipo dos instalados em Angra dos Reis,
aonde as reações nucleares são de fissão - adiante discutiremos isso). A
luminosidade do Sol é 3,8x1026 Watts, valor que simbolizamos por L¤.
Para as outras estrelas, preferimos medir suas luminosidades com referência à
luminosidade do Sol: a estrela Betelgeuse, por exemplo, tem luminosidade de 104
L¤ , quer dizer, ela é 10 000 vezes mais luminosa que o Sol. No diagrama H-R da
(Figura acima), o brilho das estrelas está expresso em termos da sua
luminosidade, enquanto a cor está em termos da sua temperatura superficial.
Quando examinamos como
se distribuem os pontos correspondentes às estrelas no diagrama H-R (figura
acima), algo notável aparece: os pontos não se distribuem aleatoriamente por
todo o diagrama. Ao contrário, eles tendem a se concentrar em algumas regiões
definidas. A maioria das estrelas, incluindo o nosso Sol, ficam numa faixa que
corre mais ou menos diagonalmente pelo diagrama. Esta faixa é denominada
Sequência Principal, e as estrelas que aí se localizam são chamadas de estrelas
da Sequência Principal. Aqui, as estrelas mais vermelhas - mais frias
superficialmente - são as menos luminosas, enquanto que as estrelas mais
azuis - mais quentes - são as mais luminosas.
As massas das
estrelas pode variar bastante. Na seqüência principal, as estrelas que têm
maior massa
são as mais brilhantes e, portanto, mais azuis e mais
quentes superficialmente. Ao contrário, as estrelas de menor massa são
as menos brilhantes e, portanto, mais vermelhas e mais frias. As massas das
estrelas na seqüência principal variam bastante. Uma fração considerável de
estrelas tem massas entre 0,1vezes a 10 vezes a massa do Sol , mas a maior parte
tem massas da ordem de 0,8 M¤ , ou pouco menor: são as anãs-vermelhas, muitas
vezes encontradas como companheiras invisíveis de estrelas normais. Mas existem
também algumas estrelas cujas massas podem chegar até a 60 M¤. Essas estrelas
são 10 milhões de vezes mais brilhantes que o Sol: se Alfa do Centauro fosse uma
delas, brilharia no nosso céu tanto quanto a Lua cheia! As estrelas da seqüência
principal também nunca são muito grandes: os seus raios variam de 0,001 até 25
vezes o raio do Sol, no caso das estrelas mais brilhantes.
Todas as estrelas da seqüência principal
produzem a energia que irradiam através de reações nucleares muito semelhantes
àquelas que ocorrem durante a explosão de uma bomba-H: convertendo núcleos de
hidrogênio em núcleos de hélio. Cerca de 80% da massa destas estrelas está
na forma de hidrogênio, de modo que fica claro que elas tem combustível para
passar muito tempo na sequência principal. As de maior massa, porque são mais
brilhantes, devem passar um tempo menor: como sua luminosidade é
desproporcionalmente maior, elas devem "queimar" seu hidrogênio mais rapidamente
que as estrelas com massa menor.
No diagrama H-R, acima
da seqüência principal, encontramos as estrelas gigantes
vermelhas. Estas estrelas são esferas distendidas de gás - algumas vezes
chegam a ser maiores que a órbita da Terra em torno do Sol - frias e luminosas.
Embora a sua temperatura superficial seja baixa, as suas áreas superficiais são
tão grandes que fazem com que elas tenham altíssimas luminosidades, de centenas
a milhares de vezes superiores à do Sol.
As gigantes vermelhas são estrelas que já esgotaram boa parte
de suas reservas de hidrogênio: como, então, podem emitir tanta energia para
serem assim luminosas ? Estas estrelas deixaram a seqüência principal e agora as
suas regiões centrais estão se contraindo, na busca de fontes alternativas de
energia nuclear. Nesta contração, uma parte da energia potencial
gravitacional
contida na estrela é liberada. É esta energia que provê a sua luminosidade. Mas
isto somente por curtos períodos, até que outros "combustíveis" nucleares possam
entrar em "ignição". Adiante iremos rever estas questões com maiores detalhes.
Abaixo da seqüência principal encontram-se as estrelas anãs-brancas. Estas
estrelas tem aproximadamente o tamanho da Terra, embora sua massa seja da ordem
da massa do Sol. São, portanto, estrelas muito densas. Como elas são pequenas,
embora tenham altas temperaturas superficiais, não são muito luminosas.
As anãs-brancas são o último estágio da evolução de muitas
estrelas. Nesta fase a sua luminosidade é unicamente devida à energia térmica ou
seja, calor, ainda disponível: a estrela se esfria lentamente. Mais de 10% das
estrelas na nossa vizinhança são anãs-brancas, mas elas são muito difíceis de
serem vistas, dada a sua fraca luminosidade. A maioria das estrelas
têm brilho praticamente constante no tempo. Ocorrem sempre pequenas variações,
erráticas, em geral imperceptíveis a olho nu. Isto sem contar, é claro, com a
lenta - lentíssima - variação de brilho devido ao fato que as estrelas evoluem,
mudando lentamente de posição no diagrama HR. Mas isto só seria notável em
escalas de tempo de 10.000 ou 100.000 anos ! Contudo, em certas fases da vida
estelar a evolução pode muito mais rápida e então as variações de brilhos podem
vir a ser mesmo espetaculares. Mais adiante voltaremos a isto.
AS ESFERAS DE GÁS QUENTE
As estrelas são enormes bolas de gás muito quente e de radiação eletromagnética,
que irradiam energia no espaço interestelar. Esta energia, que é emitida na
superfície da estrela, é produzida no seu interior mais profundo, sendo
lentamente difundida por toda a estrela até escapar pela sua superfície. Todos
nós sabemos que o calor, isto é, a energia térmica, sempre flui das regiões
quentes para as regiões frias. Isto implica que o centro da estrela deve ser
muito mais quente que a sua superfície. Na verdade, a temperatura central das
estrelas é estupidamente grande. No Sol, por exemplo, a temperatura central deve
atingir os 15x106 K, quer dizer, algo como 2.500 vezes maior que a
sua temperatura na superfície. Na seqüência principal, a temperatura central das
estrelas varia de maneira aproximadamente proporcional à massa da estrela: uma
estrela de 60M (do Sol) da seqüência principal dever ter então uma temperatura
central da ordem de 60xTcentral do Sol = 900x106 K, quase
1 bilhão de graus !!!
As estrelas são bolas de gás quente
auto-gravitantes : essa palavra significa que a estrela é mantida coesa por
causa da ação das forças gravitacionais geradas por ela própria, isto é, por sua
própria massa. Imagine um pedacinho da estrela a uma certa distância do centro
da estrela: a força de gravidade produzida pelo resto da massa da estrela
interior à posição do nosso pedacinho é que produz o seu peso, que o puxa em
direção ao centro da estrela. O peso do nosso pedacinho tem que ser
contrabalançado por uma outra força, senão ele cairia em direção ao centro e,
como ele, o restante da estrela, que assim iria colapsar. Esta força é exercida
pela pressão do gás quente que constitui o interior da estrela . Se, numa
fantasia, fosse possível "desligar" a pressão do gás no interior do Sol,
bastaria 1 hora para ele colapsar e se transformar num buraco negro.
O balanço entre a pressão do gás
(na verdade a diferença, ou gradiente, de pressão) e a gravitação é fácil de ser
entendido. Considere no interior da estrela uma camada esférica imaginária,
feita do gás contido entre as suas duas superfícies, tal como na figura abaixo.
Do lado da superfície interna da camada, a pressão do gás da estrela empurra a
camada para fora, enquanto que na superfície externa, o gás da estrela pressiona
a camada para dentro. Como a estrela está em equilíbrio, a camada não se move:
será o próprio peso da camada que irá contrabalançar a diferença entre as
pressões externa e interna, de modo que:
Esta expressão é conhecida como equação de equilíbrio hidrostático. A estrela
pode ser imaginada como constituída por um grande número de camadas esféricas
concêntricas, de modo que, à medida que vamos prosseguindo em direção ao centro,
a pressão do gás cresce ao passarmos de uma camada para outra. No centro, a
pressão atinge o seu valor máximo. Nas regiões centrais das estrelas a pressão
do gás atinge valores fantasticamente grandes: no centro do Sol ela é de 1011
atm (100 bilhões de atmosferas), o que equivaleria, na Terra, a uma coluna
pesando 100 milhões de toneladas, cuja base fosse uma moedinha de 1 centavo!
A densidade média de massa do Sol é cerca de 1,4 g/cm3
(gramas por centímetro cúbico), isto é, 1,4 vezes a densidade da água. No
entanto, a densidade no centro do Sol é mais de 100 vezes maior, aproximadamente
150 g/cm3 . Não existe nada parecido no mundo das substâncias sólidas
ou líquidas: nenhum sólido ou líquido pode existir a estas densidades,
suportando as enormes pressões que prevaleceriam. Na verdade, a única forma de
matéria possível no Sol (e nas estrelas em geral), é a forma gasosa, a
temperaturas extremamente altas.
A pressão de um gás é proporcional ao produto da sua
temperatura pela sua densidade. Resulta, então, que para termos altas pressões
necessitamos altas temperaturas. Esta é a razão das altas temperaturas no
interior das estrelas: a necessidade de grandes pressões que equilibrem a força
de gravidade produzida pela enorme quantidade de massa que as estrelas contém.
Um gás a temperaturas de milhões de
graus não se parece em nada com aqueles que estamos familiarizados (p. ex., a
atmosfera em que vivemos). Os átomos se movem a altíssimas velocidades, centenas
de quilômetros por segundo . Quando eles colidem uns com os outros - e isto
acontece com freqüência nestes meios tão densos - a interação é tão violenta que
todos os elétrons são arrancados e os átomos tornam-se completamente ionizados.
O gás então consiste, de fato, de núcleos atômicos e elétrons movendo-se
independentemente. A radiação que é produzida neste gás quente e denso é
constituída de raios X intensos, e não daquela radiação luminosa que escapa da
superfície relativamente fria da estrela. No entanto, cada fóton de raios X do
interior estelar viaja em média somente cerca de 0,0001 cm, antes de ser
capturado ou desviado por algum núcleo ou elétron do gás.
Isto explica porque as estrelas, ao
contrário dos planetas, são intrinsecamente luminosas. No seu interior elas são
extremamente quentes devido às altas pressões necessárias para contrabalançar a
gravidade. É a radiação produzida por este gás quente, lentamente escapando em
direção à superfície, que é responsável pela luminosidade da estrela. As reações
nucleares que ocorrem no seu interior compensam esta perda de energia, de modo
que a estrela pode se manter luminosa por grandes períodos de tempo. Assim, em
última análise, as estrelas são intrinsecamente luminosas por causa das enormes
massas que contém (e não por causa da energia nuclear produzida no seu
interior).
A radiação que é produzida originalmente nas regiões centrais das
estrelas está sendo constantemente desviada, ou então absorvida e reemitida,
pelas partículas (núcleos + elétrons) do gás . Estes processos dificultam, ou
mesmo bloqueiam, o fluxo da radiação em direção à superfície (como na figura a
seguir). Esta resistência ao fluxo da radiação é chamada de opacidade.
Quando a opacidade é alta, como muitas vezes acontece, o gás bloqueia a radiação
e então o transporte de calor das regiões de alta temperatura em direção a
superfície tem que ser feito por convecção:
o gás se põe em movimento formando correntes ascendentes quentes e correntes
descendentes frias, carregando para cima a energia térmica do interior. No Sol,
as partes mais externas tem opacidade muito alta, o que faz que a radiação
proveniente do interior não consiga se difundir através delas. Em conseqüência
as camadas mais externas do Sol, chamadas de envoltória, entram num estado de
convecção parecido com o de uma chaleira em ebulição. É desta forma que a
energia, que havia sido transportada pela radiação até a base destas camadas, é
finalmente transmitida para a superfície.
As estrelas da seqüência
principal com massas menores que a massa do Sol possuem envoltórias convectivas
profundas. Por outro lado, as estrelas da seqüência principal com massas maiores
que 2M¤ não tem envoltórias convectivas: a opacidade não é tão grande assim, e a
radiação pode se difundir até a superfície da estrela. Estas estrelas contudo
possuem "caroços" convectivos, isto é ,uma região em torno do seu centro, onde
ocorrem correntes de convecção. Nessas estrelas a energia nuclear é produzida
numa região central muito pequena, de modo que o fluxo de energia aí é muito
grande e a radiação, sozinha, não consegue dar conta do seu transporte: por isso
é que ali se estabelecem movimentos convectivos no gás.
A música das estrelas rivaliza com
a das baleias. O seu interior é uma sinfonia de sons, reverberando fragores e
trovões e sibilando agudos lamentos. Ninguém disse para a estrela qual o tamanho
e forma que deveria ter, qual deveria ser a sua temperatura, quanto deveria
brilhar, ou como ela poderia compensar a energia que escapa continuamente da sua
superfície. São as ondas acústicas que, percorrendo a estrela em aproximadamente
1 hora, fazem com que as várias partes da estrela se comuniquem umas com as
outras, permitindo que ela encontre, a todo momento, o estado de equilíbrio mais
apropriado e natural. A estrela se reajusta vibrando em vários modos de baixa
freqüência. Na outra ponta da escala sonora, umas 60 oitavas acima, o sibilar
das partículas de alta velocidade, se encontrando e empurrando umas às outras,
produzem ondas que atravessam apenas pequenas distâncias. Não bastasse essa
imensa orquestração de sons, a estrela também funciona como um enorme
alto-falante. Como a densidade de matéria decresce do centro para fora, as ondas
sonoras, à medida que se propagam, aumentam de amplitude e, portanto, de
intensidade. Desta forma, chega à superfície da estrela uma torrente de ondas
sonoras amplificadas que, passando através dela, acaba se dissipando nas camadas
atmosféricas da estrela. No caso do Sol, que tem a sua envoltória convectiva
como fonte de ondas sonoras, o contínuo bombeamento de energia através de ondas
acústicas ajuda a manter a coroa a temperaturas da ordem um milhão de graus
Kelvin.
A coroa solar, normalmente vista durante os eclipses, é a camada
mais alta da atmosfera da Sol: ela é tão rarefeita que é incapaz de se livrar de
toda a energia que recebe na forma de radiação. Então, sua única saída é
expandir-se e expulsar o excesso de energia. Desta maneira a alta atmosfera do
Sol parece com um gigantesco motor a jato: o seu combustível é o gás das camadas
inferiores que, aquecido pelas ondas acústicas, é expulso em alta velocidade.
Este fluxo de matéria em expansão para fora do Sol é o chamado vento solar,
capaz de retirar do Sol algo como 100 toneladas de massa por segundo. Este
fenômeno não é exclusivo do Sol: outras estrelas também têm seus ventos
estelares, algumas vezes muito mais intensos que os do Sol - tão mais intensos
que podemos dizer que algumas estrelas estão literalmente desaparecendo,
evaporando-se em escalas de tempo de não mais que alguns milhões de anos.
![]() Esta figura ilustra como os Fótons de
radiação se difundem
A GERAÇÃO DE ENERGIA NUCLEAR NAS ESTRELAS
As estrelas são imensos reatores atômicos que geram energia nuclear. A luz do Sol que nos alimenta é produzida no interior profundo do Sol. Para entender isto vamos precisar nos deter um pouco e examinar como a energia nuclear é gerada nas estrelas.
OS NÚCLEOS ATÔMICOS
Os átomos se combinam entre si para formar as moléculas. As moléculas se mantêm coesas, graças às forças elétricas que resultam dos átomos que as compõem, ao compartilharem ou trocarem os seus elétrons mais externos. Estas forças elétricas moleculares não são muito fortes, quando comparadas com as forças nucleares. Assim, se fizermos um rearranjo dos átomos numa molécula, ou se a quebrarmos, o resultado será uma liberação relativamente pequena de energia química. A energia química é a forma de energia mais utilizada pela humanidade, por exemplo queimando petróleo ou carvão. Todos os átomos têm um pequeno núcleo, que é carregado positivamente, rodeado por uma nuvem comparativamente grande de elétrons. O núcleo propriamente é constituído por partículas conhecidas por núcleons, que tanto podem ser prótons, que são carregados positivamente, ou neutrons, que não têm carga elétrica. Estes núcleons são mantidos coesos no núcleo, graças a uma outra força, que só ocorre entre núcleons, denominada força ou interação forte que é, comparativamente, muito mais forte do que as forças elétricas. Além disso, quando promovemos um rearranjo ou a quebra de um núcleo, podemos, dependendo do núcleo, ter uma liberação ou uma absorção de energia nuclear, que é, em geral, milhões de vezes maior que a energia química ordinária. Imaginemos que dispomos de um reservatório de núcleons livres - prótons e nêutrons - os quais possamos combinar e juntar de diferentes maneiras, de modo a produzir os elementos químicos da tabela periódica . Sempre que um núcleo atômico, qualquer que seja, for construído a partir dos seus núcleons individuais, ocorre uma liberação de energia. Isto ocorre porque os núcleons sempre se atraem entre si, através da força forte. A energia que é liberada na formação do núcleo a partir dos seus componentes individuais é chamada de energia de ligação do núcleo. Todas as coisas são coesas por algum tipo de energia de ligação de algum tipo. Por exemplo, uma pedra está presa à Terra através da força de gravidade: a sua energia de ligação (à Terra) é a quantidade de energia que seria liberada se a mesma pedra caísse na Terra, vinda do espaço. Neste caso, a força de atração é a força gravitacional. No caso das moléculas, a força atrativa é a força elétrica. Por outro lado, se quisermos "desmontar" um objeto nos seus componentes individuais, iremos precisar gastar energia, numa quantidade exatamente igual à sua energia de ligação. Será mais conveniente agora pensarmos na energia de ligação por núcleon, que é calculada simplesmente dividindo a energia de ligação total do núcleo pelo número de núcleons que ele dispõe. A figura abaixo mostra como varia a energia de ligação por núcleon dos elementos químicos, em função do seu número de massa, que é igual ao seu número total de núcleons (simbolizado por A). Como se pode ver, ela primeiro aumenta até atingir o valor máximo, quando A = 56, o que corresponde ao núcleo do Ferro, e depois diminui para os núcleos mais pesados, de número de massa maior. ![]() A curva da energia de ligação dos
diferentes núcleos atômicos. Assim, se dispusermos de 224 núcleons livres, então teremos mais energia liberada construindo 4 núcleons de Ferro do que construindo um único núcleo do elemento químico Rádio, de número de massa A=224.
FUSÃO OU FISSÃO?
Na verdade, é praticamente impossível dispor de núcleons livres como nas experiências imaginárias que fizemos na seção anterior. Os prótons são fáceis de encontrar, pois eles são os núcleos dos átomos de Hidrogênio, o elemento mais abundante do Universo. Mas os neutrons são muitíssimo raros: quando ficam livres eles decaem, isto é, transformam-se em outras partículas, muito rapidamente. Assim, se realmente quisermos brincar de alquimistas precisaremos utilizar os núcleos já existentes e a partir deles construir os outros. Podemos juntá-los, e então teremos um processo de fusão nuclear, ou quebrá-los em núcleos menores, no processo de fissão nuclear. No entanto, embora o objetivo dos alquimistas fosse a transmutação dos elementos, o objetivo da estrela é obter energia nuclear suficiente para compensar as suas perdas. Isto só pode ser realizado quando o núcleo final tem energia de ligação maior que os núcleos iniciais. Olhando para a figura anterior, vemos que para aumentar a energia de ligação é necessário sempre caminhar em direção ao pico do Ferro. Assim, se estivermos à esquerda, isto é, se dispusermos unicamente de núcleos de elementos mais leves que o Ferro, obteremos energia pela fusão de núcleos leves em núcleos mais pesados: é assim que as estrelas obtém sua energia nuclear. Por outro lado, se estivermos à direita, teremos energia pela fissão de núcleos pesados em núcleos mais leves: esta é a maneira pela qual a Humanidade obtém energia nos reatores nucleares. As estrelas da seqüência principal obtêm sua energia pela fusão de 4 núcleos de Hidrogênio, isto é, 4 prótons, formando 1 núcleo de Hélio. Todavia, a massa de 1 núcleo de Hélio é cerca de 1% menor que a soma das massas de 4 prótons! Isto acontece porque a energia e a massa são equivalentes, de modo que a energia liberada no processo de fusão equivale a uma perda de massa, a qual é igual a uma pequena fração da massa original dos 4 prótons. Na verdade, qualquer forma de energia equivale a uma massa: por exemplo, uma chaleira de água quando aquecida até o ponto de ebulição pesa um bilionésimo de grama a mais do que quando a água está fria, porque o calor é uma forma de energia e portanto tem massa . Segundo a famosa fórmula de Einstein, a equivalência da energia com a massa se expressa assim: Energia = Massa x c2 onde c simboliza a velocidade da luz. Assim, poderíamos, em principio, transformar 1 tonelada de matéria em energia: isto supriria a humanidade de energia por pelo menos 1 ano... O Sol produz energia consumindo sua massa a uma taxa de 4 milhões de toneladas por segundo. As estrelas da seqüência principal produzem sua energia pela queima do Hidrogênio e a sua lenta transmutação em Hélio. A energia é produzida na região central da estrela, onde a temperatura e a densidade são mais altas, e então lentamente é transportada para a sua superfície. Isto no leva à seguinte questão: Por que a energia é liberada tão lentamente ? Por que as estrelas não explodem, liberando instantaneamente uma imensa quantidade de energia nuclear ?
O NASCIMENTO DAS ESTRELAS
AS NUVENS INTERESTELARES:BERÇÁRIO DAS ESTRELAS
A maioria das estrelas da nossa Galáxia foram formadas há
muito tempo. Apesar disso muitas estrelas são ainda jovens e novas estrelas
também estão se formando, como podemos observar na nebulosa de Orion, por
exemplo. As novas estrelas nascem nas grandes nuvens de gás e poeira - nuvens
escuras - que se espalham pelo meio interestelar. Estas nuvens são formadas por
mais de 80% de Hidrogênio (na forma molecular, H 2), uns 18% de Hélio
e umas "pitadinhas" - 1% a 2% - de elementos mais pesados. ![]() As Estrelas das Plêiades nasceram aproximadamente há 60
POR QUE NASCEM AS ESTRELAS?
As grandes
nuvens moleculares geram estrelas no seu interior por causa de um fenômeno
conhecido como instabilidade gravitacional. Num certo sentido, a
instabilidade gravitacional pode ser entendida como o inverso do equilíbrio
hidrostático que prevalece nas estrelas. Naquele caso, como vimos, o peso de uma
camada é equilibrado pela diferença das pressões nos dois lados da camada. Se,
por alguma razão, o peso da camada superar a diferença de pressões, teremos o
inicio de um movimento de contração que pode se transformar num colapso, isto é,
todas as camadas se precipitam em direção a um centro ao mesmo tempo.Forma-se um
coágulo de gás mais denso e quente no interior da nuvem: é a proto-estrela. Assim, por
causa da instabilidade gravitacional induzida por causas externas ou internas, a
nuvem entra num processo de coagulação generalizado - é a
fragmentação da nuvem. Como a nuvem normalmente tem movimentos internos -
uma turbulência
interna- os coágulos, além da contração, apresentam também um movimento de
rotação. No início, os coágulos são mais ou menos esféricos. Mas, à medida que
se contraem, passam a girar cada vez mais rapidamente e, então, lentamente
começam a se achatar, tornando-se oblatos. A região central, que tem que
suportar o peso de todo o resto do coágulo, acaba se contraindo mais
rapidamente, tornando-se mais densa e quente: é o caroço do coágulo.
VIDA E MORTE DAS ESTRELAS
A ESTRELA ESGOTA O SEU RESERVATÓRIO DE HIDROGÊNIO O que irá
acontecer com uma estrela da sequência principal após esgotarem todo o seu
Hidrogênio central, dependerá da massa que ela que ela tiver. De maneira geral,
as estrelas evoluem tanto mais rapidamente quanto maior for a sua massa. As
estrelas de massa menor que o Sol, levam muito tempo para fazer isto, mais do
que os 10 bilhões de anos, que é a idade da Galáxia. Sobre estas estrelas, só
podemos tentar predizer o seu futuro, já que todas elas, mesmo as que nasceram
nos primórdios da vida da Galáxia, ainda se mantém na sequência principal. As
estrelas de massa maior que o Sol, no entanto, evoluem mais rapidamente.
A VELHICE
A partir do momento que a estrela deixa a seqüência principal, é sinal que ela está entrando na sua "3a idade" . Ela tem, comparativamente, pouco tempo de vida. Ela percebe, tardiamente, que a vida na seqüência principal era por demais calma e sedentária e decide que terá, ao menos, um final glorioso . Infelizmente, não lhe resta muito combustível nuclear. Agora tudo que pode fazer é tentar queimar o Hélio que ainda lhe sobrou, e proceder a fusão paulatina de todos os elementos, passo a passo, até o Níquel e o Ferro. A cada passo, maiores densidades e temperaturas centrais são requeridas e o restante do combustível nuclear é queimado de forma cada vez mais rápida.
GIGANTES VERMELHAS E ANÃS BRANCAS
Vamos começar
considerando as estrelas de massa menor que 2 massas solares. Elas
terminam sua vida como anãs brancas. Durante sua fase gigante vermelha, estas
estrelas continuam a contrair o seu caroço central até que a sua temperatura e
densidade sejam suficientemente altas para iniciar a queima do Hélio em Carbono.
Enquanto isto não acontece, a gigante vermelha continua a aumentar o seu brilho.
No diagrama HR ela segue uma trajetória praticamente vertical. A ignição do
Hélio ocorre quando a temperatura central chega aos 100 milhões de graus (108
K). Ela acontece de repente: é o chamado
flash do Hélio. O caroço central se expande subitamente e a luminosidade da
estrela diminui até se estabilizar várias ordem de grandeza abaixo, enquanto o
Hélio passa a ser queimado de maneira quiescente. ![]() Nebulosa Planetária. Esta é a Nebulosa da Hélice, a mais próxima de todas as nebulosas planetárias (450 anos-luz). A pequena estrela central é o caroço brilhante da estrela cuja envoltória, hoje, constitue a nebulosa. Dentro de uns 5 bilhões de anos, o nosso Sol também irá se tornar uma anã branca. Apenas uma luz pálida irá brilhar no nosso gelado planeta, por vários bilhões de anos.
AS SUPERNOVAS
Vamos,
agora, considerar o caso das
estrelas de maiores massas, situadas na parte superior da seqüência
principal. Elas rapidamente liquidam com o seu reservatório central de
Hidrogênio e deixam a seqüência principal em poucas dezenas de milhões de anos.
Então, elas se tornam gigantes vermelhas monstruosamente grandes (chamadas de
Super-Gigantes vermelhas), com o caroço de Hélio rodeado por uma camada onde
queima o Hidrogênio. À medida que o caroço se contrai, o Hélio começa a queimar,
transformando-se em Carbono e Oxigênio. Logo a estrela passa a ter um caroço
inerte de Carbono e Oxigênio, rodeado por uma camada de queima de Hélio, que por
sua vez é rodeada por uma camada de queima de Hidrogênio. Passando o estágio de
gigante vermelha, a estrela torna-se ainda mais luminosa, sofrendo agora de
episódios de pulsação e de ejeção de gás a altas velocidades. Neste estágio,
estas estrelas são por vezes denominadas estrelas Wolf-Rayet. O caroço colapsado, desvestido do seu manto explodido, emerge agora como uma estrela de nêutrons girando rapidamente. Esta explosão titânica, causada pela energia liberada na implosão do caroço e pela explosão do manto, resulta numa Supernova: por um curto período de tempo ela torna-se tão brilhante quanto todas as estrelas da Galáxia brilhando juntas. Se uma Supernova ocorresse a uma distância equivalente a Alfa Centauro, ela brilharia nos céus da Terra tanto quanto o Sol. ![]() A Nebulosa do Caranguejo na Constelação do Touro é uma das fontes mais intensas em ondas de radio e também em Raios-X e Ultra-violeta. A sua Luminosidade total é 100.000 vezes maior que a luminosidade do Sol. Esta imensa energia da Nebulosa vem do Pulsar que se encontra no seu centro. Esta nebulosa é o resto de uma Supernova que explodiu no ano de 1054DC e que foi registrada (a olho nu e durante o dia!!!) pelos chineses e também pelos índios norte-americanos.
ESTRELAS DE NÊUTRONS E BURACOS
NEGROS
Uma estrela
de nêutrons tem um raio pouco maior que 10km e densidade perto dos 1000 trilhões
de gramas/cm3. Uma gotinha de matéria neutrônica pesaria na Terra
milhões de toneladas. Uma estrela de nêutrons possui campos magnéticos de 1012
gauss - um trilhão de vezes mais intenso que o campo magnético da Terra - e
começa sua vida girando rapidamente, a centenas de voltas por segundo. Ela é um
pulsar.
Textos complementares:
O Brilho das Estrelas
Sol: aquele que era um rei vai virar uma nebulosa
Formação dos Elementos
Químicos: Da Grande Explosão às Estrelas |